sexta-feira, 20 de outubro de 2006

A menina sem alma



A cabeça girava, girava, girava, acompanhando a dança balanceada daquele balanço. O vento esvoaçava embaraçando todo o seu cabelo dourado. Um filtro negro cobria as suas pálpebras, a seca atingia sua laringe e seu paladar. Com o estremo vazio no olhar, a menina cuja alma nunca teve, olhava fixamente para o verde musgo. Observava como era atraente aquela cor, como gerava um sentimento de alucinação nos seu cérebro. E como desejava poder sentir aquele verde com o seu toque desalmado.
Quando viestes para o mundo, antes mesmo de respirar a poluição, ela já sabia que não teria chance. Que a humanidade seria severa e que não teria onde se apoiar.
Sem pai e sem mãe, antes de chegar já tinha seu destino traçado. Sua alma fora roubada assim que perfurastes a camada secretora do útero materno. Nada poderia ser feito então. O pecado havia sido consumado e a praga já havia sido lançada. Não teve escolha, foi lançada sem proteção ao seu destino.
Um olhar vazio é o que lhe resta, pois criança nunca foi de verdade, já tivestes sua cópula carnal arrancada junto com sua grandeza moral. Agora o que sobra é o olhar, que observa e deseja algo que não pode alcançar, algo que está perto, mas que não tem força para tocar.
Sem alma nascestes sem alma morrestes, vátima do tesão precoce, do ato irresponsável. Desprovida da culpa, pagastes pelo delito dos devassos seres humanos, indignos do perdão desta pobre alma infeliz.
O vento continuou a esvoaçar seu cabelo, mas seus olhos já não enxergavam mais o verde musgo. Se fecharam na eternidade, só restou o balancear calmo daquele balanço, que a embalou como o colo de uma mãe que jamais teve.
Que descansem em paz os seres, que assim como a menina sem alma, vagaram pelo mundo perdidos dentro do labirinto da culpa desconhecida.

Dayanne Nascimento - 2006

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